25 Setembro - Home, Lar Doce Lar


Título original: Home

De: Ursula Meier

Com: Isabelle Huppert, Olivier Gourmet, Adélaïde Leroux
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: França
Ano: 2008
Cores, 97 min

Uma auto-estrada por acabar, abandonada há dez anos, degrada-se lentamente até ao dia em que, inesperadamente, se retomam os trabalhos de construção. À beira do asfalto, a poucos metros da barreira de segurança existe uma casa onde vive, pacatamente instalada, uma família que resolveu viver afastada da civilização. Assim começa o pesadelo daquelas quatro pessoas, habituadas ao silêncio e privacidade. Um filme sobre a solidariedade familiar num momento de mudança e sobre todas as consequências nefastas da poluição, quer físicas, quer psicológicas, na vida de cada ser humano.



Luís Miguel Oliveira, in PÚBLICO, 30 de Junho de 2009
Na berma do progresso
Uma fábula absurda sobre a inevitabilidade da "vida moderna"
Eis um filme que tem tudo para ser bem recebido em Portugal, país onde o "progresso" tem tendência a ser medido em quilómetros de auto-estrada. Enfim, não será só em Portugal, mas aqui a fúria auto-estradista é recente e ainda não totalmente desvanecida. Se o leitor, ao cavalgar pela A1 ou pela A2 ou por outra A-qualquer, alguma vez deu por si a interrogar-se sobre se aquelas casitas que vai encontrando nas imediações já lá estavam antes ou se são dalgum louco que resolveu ir viver com vista para a auto-estrada, este filme dirige-se à sua curiosidade. Porque, pondo-o simplesmente, é um filme sobre o que existia antes da auto-estrada, e sobre como o que existia antes passou a viver com a auto-estrada.
Explicando melhor a situação - quase minimalista - de "Home - Lar Doce Lar", primeira longa-metragem da suíça Ursula Meier, temos uma família que escolheu ir viver para o campo, numa vivenda isolada de tudo. A mãe é Isabelle Huppert, o pai é Olivier Gourmet (que conhecerão dos filmes dos Dardenne), e têm três filhos, duas raparigas e um rapaz, adolescentes. O sossego é total, a família é feliz e unida. Até ao dia em que é construída uma auto-estrada que passa mesmo à porta daquela vivenda. E pior, chega o dia em que a auto-estrada é inaugurada, e a família ouve, com resignado desconsolo, a euforia de uma rádio local que anuncia que agora sim, a vida vai-se tornar mais fácil para toda a gente.
Numa entrevista, Ursula Meier descreveu o seu filme como um "road movie em reverso". Faz sentido, se entendermos por tal um "movie" que não saia da berma da "road". É aí que estamos desde o momento em que o filme arranca, na berma da auto-estrada, na berma do "progresso", numa espécie de fábula absurda sobre a inevitabilidade da "vida moderna" - estejas onde estiveres, ela vai ter contigo, já não se pode ser eremita em paz. Já não se pode ser eremita, ponto. Mas pode-se insistir, pode-se "resistir". Com ironia e um sentido de humor angustiante, Meier descreve a "resistência" daquela família, que não abdica assim tão facilmente do seu bucólico isolamento e tenta, com estoicismo, continuar a viver como se a auto-estrada fosse uma casualidade, um leve estorvo que deixa de existir se se fingir que não existe. É por aí que o filme acaba por fugir um bocadinho a estas premissas, e como que acompanhando o fingimento das personagens acaba por se centrar na família e nos sinais da loucura (emparedam-se...) em que a sua resistência se vai tornando, como se a auto-estrada se convertesse em metáfora, em elemento perturbador que vem desequilibrar o que dantes parecia unido e harmonioso. Até uma conclusão lógica, e por isso "perfeita", ou "redonda", conforme se prefira salientar a virtude ou o vício de uma estrutura circular.
De qualquer modo, o mais entusiasmante está no modo notável como Meier filma a proximidade entre aquelas personagens e a violência física, visual e sonora da auto-estrada e do incessante fluxo de tráfego. Auto-estradas e automóveis: coisa corriqueira da vida moderna de todos os dias. Nalgumas cenas, nalguns planos, nalguns "gags", numa banda de som carregadíssima (mas sempre estranhamente "realista"), o filme de Meier evoca, sem necessariamente ficar a perder, alguns filmes célebres que usaram o automóvel como maneira de destapar o "corriqueiro" da vida moderna para criar uma luz que ilumina a violência que sob ele se esconde. Os automóveis-besouro do "Crash" de Cronenberg, os engarrafamentos-instalação do "Weekend" de Godard ou do "Playtime" de Tati. O "progresso" medido em quilómetros de auto-estrada, em toda a sua insidiosa inescapabilidade.



Mais sobre o filme:

18 Setembro - Almoço de 15 de Agosto


Título original: Pranzo di Ferragosto

De: Gianni Di Gregorio

Com: Valeria De Franciscis, Marina Cacciotti
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: Itália
Ano: 2009
Cores, 75 min
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Apesar de já ser um homem de meia-idade, Gianni continua a viver com a mãe que lhe trata de tudo o que ele precisa. Mas, mesmo assim, Gianni vai acumulando dívidas. A renda do velho apartamento onde moram no centro de Roma está em falta há meses, assim como o valor do condomínio. E, quando lhe exigem os pagamentos em atraso, ele acaba por pagar de uma forma peculiar: fica a tomar conta da mãe idosa do senhorio no feriado de 15 de Agosto. Porém, uma série de outros imprevistos deixa-o a braços, não com duas, mas com quatro velhas senhoras.



Mário Jorge Torres, in PÚBLICO, 14 de Abril de 2009
Intermezzo de Verão
Um filho "aprisionado" por quatro velhas senhoras. Tudo respira cinema e pequena aventura no espaço limitado de um apartamento em Roma.
Depois de muitos anos de glória, desde a emergência do neo-realismo, sobretudo no pós-guerra, com "Roma, Cidade Aberta" e "Libertação" de Rossellini, passando pela vitalidade perene da chamada "comédia à italiana" e prolongando-se até aos 70 com um cinema de autor fortemente personalizado (Visconti, Fellini, Antonioni), o cinema transalpino atravessa um período difícil, sem soluções visíveis, que não a de telefilmes, mais ou menos indistintos. Por isso é de saudar a estreia deste "Almoço de 15 de Agosto", se bem que haja na sua concepção elementos que poderíamos associar a influências televisivas, rapidamente superadas por um inteligente uso do cenário, por personagens complexas e bem construídas e por uma "mise-en-scène" inventiva, a explorar um microcosmo de bairro, numa Roma deserta pelas férias estivas.
A primeira questão a sublinhar é, aliás, o modo brilhante como se convoca a memória cinematográfica italiana. Roma deserta, no Verão, evoca, desde logo, o périplo de Nanni Moretti pelas ruas e lugares quase fantasmáticos, em "Querido Diário", mas Gianni di Gregório nesta sua promissora primeira obra vai mais atrás, aos tempos da comédia de Dino Risi ou Mario Monicelli, com possíveis citações de "A Ultrapassagem", embora aspirando a recompor o tom de género, preferindo-o à remissão para um filme particular. Há ainda no registo nostálgico de um quotidiano ficcionado e nas figurações tragicómicas das velhas senhoras ecos do Ermanno Olmi de "O Emprego" ou de "Lunga Vita a la Signora". O protagonista, meio ocioso, meio obcecado, repega numa caracterização que associamos ao Alberto Sordi de "Uma Vida Difícil", não sem que possamos descartar rimas internas com "Os Inúteis" de Federico Fellini. Do neo-realismo recordamos a alegria de filmar e de viver de um filme como "Domingo de Agosto" de Luciano Emmer. Tudo respira cinema e pequena aventura no espaço limitado de um apartamento claustrofóbico, embora aberto à Cidade Eterna (sintomáticos os belíssimos planos do terraço) entre objectos familiares e fingimentos lúdicos, numa festa permanente que confunde gerações e explora histórias sem futuro e com um passado filtrado por um olhar penetrante e universal.
A abertura, com a leitura de "Os Três Mosqueteiros", numa luz fosca de pintura holandesa de interiores, demonstra esta paixão pela ficção transposta, lida por um filho à velha mãe, caprichosa e "coquette", interessada nos traços fisionómicos de D''Artagnan (inacreditavelmente traduzido, nas legendas portuguesas, por Dartacão, como se Alexandre Dumas não existisse e se reduzisse aos desenhos animados do passado recente) e numa recriação do mundo vivido, a partir da imaginação. A personagem do filho, um perdedor nato, especializado numa sobrevivência feliz, funciona como centro da acção e distribui os seus dotes gastronómicos e protectores, procurando harmonizar o espantoso grupo de orgulhosas senhoras dignas.
E, se a memória é o motor do filme, o esquecimento joga-se nas relações entre as anciãs que, de certo modo, tomam nas mãos os protocolos deste intermezzo de Verão: uma delas foge para fumar e apanhar o ar fresco da noite, outra recusa a dieta, "imposta" pelo filho, e come, às escondidas, a proibida massa no forno; a dona da casa esquece os seus agravos e junta-se à festa. A sexualidade, a comida, os prazeres do convívio tudo vem à colação, num registo de transgressão contagiante e poroso.
Claro que poderíamos acentuar um certo cariz autobiográfico deste filmezinho quase artesanal, em que o realizador assume também o papel do protagonista, filmando a função na casa romana que partilhou com a mãe, durante anos. Mas o que o torna cativante e irresistível é a sua vertente onírica de escape à realidade omnipresente e determinante: um pequeno sonho de um fim-de-semana de Verão, em que tudo se transfigura, tudo reverte para uma carnavalesca imitação de vida.


Mais sobre o filme

11 Setembro - Che, Guerrilha


Título original: Che: Part Two - Guerilla

De: Steven Soderbergh

Com: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro, Demián Bichir
Género: Drama/ Guerra
Classificação: M/12
Origem: ESP/EUA/FRA
Ano: 2008
Cores, 131 min

Segunda parte de um filme em dois tomos: "Che", de Steven Soderbergh, com Benicio del Toro, sobre a figura mítica de Guevara. Neste segundo filme, relatam-se os acontecimentos pós-Revolução Cubana. Depois de se tornar no herói da revolução e no símbolo da luta e do heroísmo, Che desaparece e deixa Cuba. Reaparece na Bolívia, onde se vai juntar novamente a um grupo de guerrilheiros, voltando a envolver-se num novo combate, que desta vez lhe será fatal.

4 Setembro - Che, O Argentino


Título original: The Argentine - Che: Parte One

De: Steven Soderbergh

Com: Benicio Del Toro, Julia Ormond, Pablo Guevara
Género: Biografia/ Drama
Classificação: M/12
Origem: ESP/EUA/FRA
Ano: 2009
Cores, 133 min
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Cuba, 1952, o general Batista toma o poder e anula as eleições. Fidel Castro, jovem advogado, decide confrontar o poder e depois de uma tentativa de levantamento popular, em 53, que o leva dois anos à prisão, exila-se no México. Durante estes anos, um jovem médico argentino, Ernesto Guevara, luta também pelos seus ideais e acaba por ter de se refugiar no México, onde vai conhecer o grupo revolucionário cubano. De um encontro em 55, entre Fidel e Che, nasce o momento chave na história de Cuba. Em 56, Fidel chega à ilha com 80 homens e o objectivo de derrotar a ditadura de Batista. Apenas 12 guerrilheiros sobrevivem, entre os quais Che, que vai provar ao longo dos anos as suas qualidades de combatente que o levam a tornar-se o rosto mítico da revolução.

Setembro 2009 - Cartaz


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10, 11 e 12 Agosto - Cinema ao Luar

Sessões às 22h00 horas, nos Claustros da Câmara Municipal de Amarante

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O Cineclube de Amarante retoma a iniciativa Cinema ao Luar interrompida em 2007.
Na 1ª noite teremos um filme-concerto. Filme imperdível e muitas vezes citado como um dos melhores filmes da história do cinema.
Na 2ª noite e como prometido: o grande vencedor dos Óscares deste ano.
Na última noite, um filme de animação.
(Estes 2 filmes serão exibidos em cópia de 35 mm.)


12 de Agosto, 4ª-feira, 22h
WALL-E


Título original: Wall-E
De: Andrew Stanton
Género: Animação, Comédia
Classificação: M/6
Origem: EUA
Ano: 2008
Cores, 98 min
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11 de Agosto, 3ª-feira, 22h
Quem quer ser bilionário?


Título original: Slumdog Millionaire
De: Danny Boyle e Loveleen Tandan
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: EUA/GB
Ano: 2008
Cores, 120 min
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10 de Agosto, 2ª-feira, 22h
Pamplinas Maquinista - Filme Concerto


Título original: The General
De: Buster Keaton e Clyde Bruckman
Género: Comédia
Classificação: M/6
Origem: EUA
Ano: 1926
PB, 75 min

Musicado ao vivo por Nikouala
O projecto Nikouala destina-se à composição de temas e ao trabalho de sonoplastia inerentes à criação de bandas-sonoras originais. Os dois membros do projecto operam em conjunto para experimentar abordagens pessoais da música, mas também os tipos de som que deverão ser adaptados às necessidades de um projecto específico. Nikouala tem trabalhado desde 2005 com teatro e cinema, estando agora a desenvolver uma maior experimentação com a live performance e as artes plásticas.
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8 e 22 Julho - Ciclo de Cinema - Debate


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Na Casa da Cultura e da Juventude, nos dias 8 e 22 de Julho, pelas 22 horas, “temos encontro” com filmes especiais, seguido de debate/conversa/tertúlia.

Uma parceria entre o Cineclube de Amarante e a Casa da Cultura e da Juventude, trata-se de uma iniciativa à volta do Ambiente e da Alimentação Biológica.



Dia 22, 4ª feira, 22h, Casa da Cultura e Juventude
O Segredo de um Cuscuz

Título original: La Graine et le Mulet
De: Abdel Keniche
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: França
Ano: 2007
Cores, 151 min
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Entrada livre


Na Casa da Cultura e da Juventude, no dia 22 de Julho, pelas 22 horas, temos um segredo a desvendar, com um filme muito especial, seguido de debate: “O segredo de um cuscuz” de Abdellatif Kechiche. Uma parceria com a Casa da Cultura e da Juventude.


Desengane-se aquele que pensa que Cuscuz é apenas o título do filme ou um petisco gastronómico originário do Magreb. É muito mais do que isso: é o núcleo agregador de uma teia de relações humanas repletas de amor e desamores, de amizade e de cumplicidade, mas também de ódio e xenofobia. Através da personagem central, Slimane, o realizador confronta-nos, sempre de forma ambivalente, com uma multiplicidade de questões inerentes à existência: as condições precárias dos imigrantes e dos seus descendentes à sua capacidade de resistência (económico-socio-cultural); da jovialidade à velhice. E porque a existência não é linear nem admite receituário, a ambiguidade do título é hiperbolizada na alternância das cenas finais: da dádiva do amor à heroicidade de um sexagenário que se recusa deixar de sonhar. Porque a utopia não tem idade, mas a idade poderá não resistir à utopia...
Elsa Cerqueira
Mais sobre o filme


Dia 8, 4ª feira, 22h, Casa da Cultura e Juventude

Home - O Mundo É a Nossa Casa

Título original: Home
De: Yann Arthus-Bertrand
Género: Documentário
Classificação: M/6
Origem: França
Ano: 2009
Cores, 120 min
Site


Entrada livre

"Em 200 mil anos de existência na Terra, o Homem quebrou o equilíbrio do planeta. Aquecimento global, extinção de espécies, recursos a esgotarem-se. Mas é tarde demais para o pessimismo: o homem tem apenas dez anos para inverter a tendência, ter consciência da exploração desmedida das riquezas do planeta e alterar as suas formas de consumo."

Este filme teve a particularidade do seu lançamento ter sido feito, no dia 5 de Junho – Dia Mundial do Ambiente - em simultâneo, nas salas, em DVD e num canal de televisão [RTP2]. Vamos ver, então, a cópia em DVD na esplanada da Casa da Cultura e da Juventude. Como diz o realizador: “É tarde de mais para ser comodista”. Apareçam...nem que chova!

27 Junho 2009 - Assembleia-geral extraordinária


CONVOCATÓRIA


O Presidente da Mesa da Assembleia-geral do Cineclube de Amarante convoca todos os sócios para a Assembleia-geral extraordinária que terá lugar no dia 27 de Junho de 2009, pelas 09:30 horas na Casa da Juventude e da Cultura, com a seguinte Ordem de Trabalhos:
1. Discussão do valor da quotização;
2. Campanha de angariação de sócios.
Se à hora marcada não estiver presente a metade dos sócios inscritos, a Assembleia abrirá os trabalhos uma hora depois com qualquer número de presenças.

Amarante, 10 de Junho de 2009

A Presidente da Mesa da Assembleia-geral do Cineclube de Amarante
Isabel Amélia Sardoeira Silva

26 Junho 2009 - Gran Torino


Título original: Gran Torino

De: Clint Eastwood
Com: Clint Eastwood, Geraldine Hughes, John Carroll Lynch
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/12
Origem: EUA
Ano: 2008
Cores, 116 min

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Caros,

Antes de irmos todos a banhos, temos um dos melhores filmes do ano para ver: Gran Torino de Clint Eastwood.

Clint Eastwood é um realizador querido (amado) do Cineclube de Amarante. Todos os filmes que realizou a partir de 1995 (ano da criação do Cineclube) foram exibidos na sala do Cinema Teixeira de Pascoaes.

Recordo:
1995, The Bridges of Madison County, As Pontes de Madison County.
1997, Absolute Power, Poder Absoluto.
1997, Midnight in the Garden of Good and Evil, Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal.
1999, True Crime, Um Crime Real.
2000, Space Cowboys.
2002, Blood Work, Dívida de Sangue.
2003, Mystic River.
2004, Million Dollar Baby, Sonhos Vencidos.
2006, Flags of Our Fathers, As Bandeiros dos Nossos Pais.
2006, Letters From Iwo Jima, Cartas de Iwo Jima.
2008, Changelling, A Troca.

(lista a conferir no catálogo Clint Eastwood: um Homem com Passado, organizado por Maria João Madeira, Cinemateca Portuguesa, Dez. 2008)

Se me permitem uma breve nota pessoal, ainda vos digo que um dos filmes da minha vida é As Pontes de Madison County, um drama como aqueles que se faziam no tempo em que o “cinema era belo”. Até Fevereiro de 1996, quando num o fim-de-semana o filme foi programado e exibido pelo Cineclube para 203 espectadores, até essa data, dizia eu, nunca tinha visto filmar assim renúncia igual: o sacrifício dos amantes pelo dever. Depois…também não. Ainda vou comprar o DVD…

Todos os filmes realizados por Clint Eastwod são bons. Muito bons até. Mas todos.
Gran Torino. Não tenho (ainda?) a certeza que seja a obra-prima de que se fala. Há uma ou duas personagens um pouco estereotipadas que me deixam a remoer. Na próxima 6ª feira, quando o revir pela 3ª vez, direi coisas.
Uma certeza tenho, no entanto. Como diz LMO, este filme tem o mais belo genérico final do cinema americano das últimas décadas. Falamos no final?

Adiante. Em Julho e Agosto temos a sala fechada. Regressamos no dia 4 de Setembro. Temos tantos filmes para ver! Os 2 filmes que Steven Soderbergh fez sobre Che Guevara. A Mulher sem Cabeça de Lucrecia Martel. O lindíssimo Almoço de 15 de Agosto do italiano Gianni Di Gregório (quem não quiser esperar, sempre pode vê-lo esta semana no Teatro Campo Alegre).
Por exemplo.

Se quiserem sugerir algum em especial para a rentrée…estejam à vontade.

Obrigado, bom filme e boas férias.

Manuel Carvalho




Vasco Câmara, in PÚBLICO, 12 de Março
Espécie ameaçada de extinção nos seus filmes, em "Gran Torino" Clint extingue-se. Sempre a sabotar-se, Clint, incorrigível masoquista. Espalhem ao vento: é uma obra-prima.
Entreguem à brisa de Verão, que já sopra, as cinzas de Joe, Blondie, Walt Coogan, McBurney, Harry Callahan, Josey Wales, Bronco Billy ou William "Bill" Munny, estes e todos os nomes com que Clint Eastwood falou do fundo do seu coração de "dinossáurio", individualista que não reconhece o mundo que o rodeia, corpo de outro tempo, em apuros e sempre desejoso de se colocar em apuros.
Enfim, entreguem à brisa de Verão estes e outros nomes a que Clint Eastwood deu o corpo, ferozmente, fazendo dele ecrã de desadequação, raiva. Espécie sempre ameaçada de extinção, em "Gran Torino" extingue-se.
"Requiem" por si próprio, por aquilo que construiu (sempre a sabotar-se, Clint, incorrigível masoquista), este é um adeus às armas. Não por se anunciar aqui a sua última presença, aos 78 anos, como actor (esse é um daqueles "anúncios" que foi sendo espalhado, como que pelo vento, não se sabe bem vindo de onde, e nem se pode jurar pela irreversibilidade da "decisão"), mas por as coisas se darem a ver aqui a partir de uma estação terminal: é um filme em que um viúvo, um reaccionário, um veterano da guerra da Coreia zangado com a vida e com o bairro, que já não reconhece porque está infestado de "gangs", foi invadido pelos imigrantes, já ali não há "americanos" - eis Walt Kowalski/Clint Eastwood -, prepara a sua saída de cena; é um filme tomado por esse clima de antecâmara que precede a rendição final, e é desta forma que Eastwood se despede do(s) seu(s) Kowalski(s): abre o peito à auto-ironia, melhor forma de alguém se desprender do que lhe pertenceu, assume a sua exterioridade face ao mundo e àquilo em que ele se tornou (é ainda a negociação do desprendimento), e, sem ceder à nostalgia, embala a coisa com suaves cintilações. Como uma canção, como a brisa que sopra neste delapidado bairro onde o fulgor do passado, a imagem dourada que dele foi construída - é que a memória pode transformar o inferno no paraíso, e isso aconteceu aos anos 40 e 50 de Kowalski -, é já só fantasma. Mas essa "presença", chamemos-lhe assim, um cineasta como Clint consegue filmá-la. É esse o grande passo em frente de "Gran Torino", consigo levando todo o património de uma "persona" que neste filme desagua: revelar o fantasma que se intromete na imagem, que nela cintila como brisa, indo atrás dele, seguindo-o e passando, finalmente, para o "lado de lá".
(Parecerá absurda a associação, mas aqui vai, é uma associação entre dois filmes invadidos por fantasmas: se "Milk", de Gus Van Sant, mostra os anos 70 para falar do presente, que é, na verdade, o fantasma que se intromete na imagem, "Gran Torino" passeia a câmara pelo presente em ruínas para revelar o mundo que ali está desaparecido.)
Podemos, para encontrar conforto, dizer que "Gran Torino" é a história de uma aprendizagem, de uma passagem de testemunho. Que Kowalski "educa" o seu reaccionarismo e xenofobia quando se encontra mais em família com os seus vizinhos asiáticos do que com a sua própria família. E que por aqueles vai ser capaz do gesto sacrificial, redentor.
Mas por quem se sacrifica, afinal, Kowalski: pela família de adopção ou por si próprio? Quem ajuda quem? A "verdade" de todos os Kowalskis de Eastwood, o seu masoquismo, se quisermos, está na extrema fidelidade à sua natureza. A de Kowalski, e isto desde a primeira sequência, no funeral da mulher, é a de ser fantasma. Condição que ele vai cumprir. E a que Clint Eastwood, cineasta, vai ser fiel: com a personagem, com o filme, está sempre do "lado de lá", feroz, fielmente. É por isso que o plano final chega-nos como teimosa oferenda do outro mundo - servida com canção a preceito - e como cintilação de um cinema de outro mundo: aquele, dos anos 50, o clássico, que já morria quando Clint Eastwood, jovem actor, chegou a Hollywood. Como se a Kowalski pertencesse sempre a última palavra.
Espalhem ao vento: "Gran Torino" é uma obra-prima.

Luís Miguel Oliveira in PÚBLICO, 13 de Março
Que acrescentar sobre "Gran Torino"? Que Clint se diverte (mas diverte-se muito seriamente) a brincar com a sua "aura", a girar entre o seu lado assustador, quase "fora de controlo" (a cena em que primeiro salva a rapariga asiática), e a proximidade reconfortante com que se encarrega da "educação" do miúdo? Que "Gran Torino" trabalha conscientemente uma "súmula", em simultâneo revisão e reiteração (donde, a sua extraordinária complexidade) do rasto que Clint foi deixando em quarenta anos de filmes como realizador e como actor?
Que o tratamento dos espaços da acção, e da sua articulação com a tensão própria das personagens, na curta escala de uma rua (e pouco mais), é prodigioso? Que tem o mais belo genérico final do cinema americano das últimas décadas? Ou repetir, apenas, "espalhando ao vento": é uma magnífica obra-prima.


O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 12 de Março de 2009.
Clint Eastwood, realizador e intérprete de «GRAN TORINO», falou em Paris com João Lopes sobre este filme, em que personifica um veterano da guerra da Coreia, misantropo e rude, que protege dois jovens vizinhos asiáticos de um
`gang` étnico que aterroriza o bairro onde vivem. «Gran Torino» é nesta altura o maior sucesso comercial de toda a carreira de Eastwood.

O encontro com Clint Eastwood aconteceu em Paris, nos cenários acolhedores do Hotel Bristol, perto dos Campos Elíseos. Tendo em conta que muitas entrevistas “internacionais” se tornaram mini-conferências de imprensa, com seis (ou mais)
jornalistas, foi simpático poder conversar durante cerca de meia hora com o autor de Gran Torino, partilhando o diálogo apenas com um colega, Ioannis Zoumboulakis, do jornal grego To Vima. Tudo indica que esta contenção decorre de exigências do próprio Eastwood, até porque, ao contrário do que faz a grande maioria dos realizadores e actores americanos, ele não veio à Europa para dar entrevistas televisivas.
Discreto e contido nos seus 78 anos, Eastwood mostra-se também disponível para a deambulação e a ironia. A sua presença integra, sem crispação, a metódica passagem do tempo que temos vindo a descobrir nos filmes. Veste-se em tons suaves, castanhos e esverdeados, apenas os ténis, desatados e de cores mais contrastadas, contrariando
a neutralidade da pose.
Quando, num paralelismo com Gran Torino, evoco Bronco Billy (1980), crónica desencantada sobre um circo que mima as glórias do velho Oeste, é evidente a ternura que Eastwood sente por esse filme tão esquecido (e, na altura do seu lançamento, tão mal amado). Mas não há nele qualquer ressentimento. Trata-se apenas de "continuar a aprender". E o seu próximo filme, The Human Factor (sobre Nelson Mandela), irá reflectir essa mesma disponibilidade.

Já na despedida, falamos da sua admiração por Manoel de Oliveira que conheceu, em Maio do ano passado, no Festival de Cannes. Uma das pessoas do staff da Warner recorda-se de, também em Cannes, ter ouvido a “lenda” segundo a qual Oliveira não terá 100, mas já 102 ou 103 anos. Com timing perfeito, e em tom muito carinhoso, Eastwood comenta: “Se calhar está a mentir sobre a idade, a ver se lhe servem uma bebida no bar”.


O seu primeiro filme, «Play Misty for Me» («Destino nas Trevas») foi feito em1971. Desde então, qual o papel da sua companhia, Malpaso, no seu trabalhocomo realizador?
A Malpaso deu-me a independência, precisamente quando eu mais precisava dela. Estava empenhado em não fazer filmes sempre do mesmo género: gostava muito dos westerns que fiz, com Sergio Leone e outros, mas queria também realizar e experimentar coisas diferentes.

Mas até mesmo em «Gran Torino» há uma componente de western, quanto mais não seja por causa do tema da terra e da propriedade.
A minha personagem, Walt Kowalski, é um homem que lutou pelo seu país e se reinstalou onde vivia. Agora, depara com uma vizinhança que já não é predominantemente de origem polaca, como ele, mas asiática, da comunidade "hmong". O filme é sobre os seus preconceitos e a maneira como os acontecimentos o impelem a agir. Mas é também sobre o momento em que, por vezes, os mais novos se tentam livrar dos velhos, colocando-os em instituições. Claro que ele é o primeiro a reconhecer que não terá sabido estabelecer uma relação com os filhos. O certo é que descobre naquele obscuro grupo asiático outro respeito pelos mais velhos. Daí que um dia se olhe no espelho e diga: "Tenho mais em comum com esta gente do que com a minha desgraçada família". Podia ser um western. Mas é também muito contemporâneo.

Nesse sentido, aceita que se diga que o filme é testemunho sobre o actual
melting pot americano?
Sim. Mas é também sobre o reconhecimento de que é possível aprender coisas novas em todas as idades: é sempre possível aprendermos a tolerância em relação aos outros. O que, em todo o caso, não impede a minha personagem de estar em conflito com a sua igreja e também com a família.

Podemos encarar o filme também como uma visão sobre a religião?
Kowalski provoca o padre, mas o certo é que as coisas vão mudando e ele acaba por ir à confissão. O interessante é que tudo isso abre novas possibilidades de vida. Na verdade, não tenho de me reconhecer em nada do que é contado, são apenas coisas que gosto de representar. Aliás, por vezes, é muito mais divertido representar pessoas com as quais nada temos em comum.

O elenco de «Gran Torino» é quase todo composto por amadores. Que diferenças há entre trabalhar com actores sem experiência profissional e alguém, por exemplo, como Angelina Jolie?
Bem, é um prazer trabalhar com Angelina Jolie... No caso de «Gran Torino» comecei por pensar em actores profissionais de origem asiática. Até que senti que valia a pena procurar no interior da própria comunidade "hmong". Deparámos com muita gente disponível, ansiosa por entrar no filme. E acabei por encontrar os dois jovens (Bee Vang e Ahney Her) que, de facto, tinham um "não sei quê" de especial.

Apesar do sucesso, antes do mais nos EUA, não se pode dizer que «Gran Torino» seja um típico filme de Hollywood. Como realizador, e como espectador, qual é a sua relação com os filmes de acção, dominados por efeitos especiais?
Os efeitos especiais são magníficos. Os efeitos visuais, em particular, evoluíram imenso e eu próprio os tenho usado, por exemplo em «As Bandeiras dos Nossos Pais». Mas, para mim, é a história que conta. Não me interessa fazer esses filmes de efeitos especiais como uma espécie de ginástica. Gosto das histórias. Cresci a ver filmes com histórias. Por exemplo, no caso de «A Troca» tive de usar alguns efeitos para recriar Los Angeles em 1928, mas era a história que
valia. Cada filme tem que ter algo que seja apelativo, uma história que valha a pena contar.

João Lopes

19 Junho 2009 - O Leitor


Título original: The Reader
De: Stephen Daldry
Com: Ralph Fiennes, Jeanette Hain, Kate Winslet
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/16
Origem: Alemanha/EUA
Ano: 2008
Cores, 125 min
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Sinopse
No final da Segunda Guerra Mundial, o jovem Michael Berg adoece e é tratado por uma bela e misteriosa mulher mais velha, Hanna (Kate Winslet). Quando os dois se reencontram, apaixonam-se e a relação intensifica-se à medida que Michael lê para Hanna obras clássicas. Mas Hanna volta a desaparecer. Oito anos depois, Michael (Ralph Fiennes) é aluno de Direito e acompanha os julgamentos dos crimes de guerra cometidos pelos nazis. É aí que descobre que a mulher que tanto amou escondia segredos que afectarão por completo a vida de ambos.

Crítica
Jorge Mourinha in PÚBLICO, 12 de Fevereiro
Por esta altura, já se percebeu como a adaptação por Stephen Daldry ("Billy Elliot", "As Horas") do romance de Bernhard Schlink, milimetricamente programada à distância para fazer boa figura nos Oscares, foi perseguida pela turbulência: Nicole Kidman começou por substituir Kate Winslet, comprometida com "Revolutionary Road", mas saltou fora quando as rodagens de "Austrália" se atrasaram, e Winslet entretanto livre regressou ao filme; o adolescente David Kross, sem experiência de representação, teve de aprender inglês (que não falava) e a produção teve de aguardar que ele chegasse à maioridade legal para arrancar com as filmagens; o director de fotografia Roger Deakins teve de abandonar as rodagens a meio para ir filmar "Dúvida", sendo substituido pelo mestre Chris Menges; os produtores, Anthony Minghella e Sydney Pollack, faleceram durante a produção; Daldry montou o filme a par com os ensaios da sua transposição para a Broadway da versão musical de "Billy Elliot", levando a um choque com os temidos irmãos Weinstein, co-produtores do filme; Scott Rudin, outro dos produtores, retirou o nome do filme na sequência (também aqui) de choques com os Weinstein...
Há um ditado inglês que, traduzido à letra, diz "demasiados cozinheiros estragam o prato", e com tanta confusão e turbulência de produção seria legítimo esperarmos um prato mal amanhado. Mas não foi nada disso que aconteceu: cerebral, meticulosamente pensado até ao ínfimo pormenor, a história do tórrido caso de Verão entre um liceal precoce e uma revisora de autocarros na Alemanha do pós-II Guerra Mundial - e do modo como os segredos do passado nazi vêm alterar "a posteriori" essa experiência - é um filme singularmente perturbante. Não porque haja aqui uma marca de realizador (e não há; antes um certo anonimato de "qualidade britânica") ou interpretações de estarrecer (mesmo que Kate Winslet seja maravilhosa, como sempre, embora no seu caso isso seja o mínimo que se possa esperar). Antes porque Daldry e o seu argumentista, o dramaturgo David Hare, fazem desta história de amor esquiva e profundamente equívoca uma meditação sobre a moral, a justiça, a vergonha, o passado, a História, o dever. Onde nunca nada é o que parece e tudo parece construído sobre areias movediças, numa sucessão de camadas que vão lentamente caindo, como uma flor malsã que só revela a sua natureza profunda depois de desabrochar por completo, mas sem escamotear que o que aqui se joga é, tudo, demasiadamente humano.
Reveladora, a esse nível, é a cena do julgamento em que Winslet faz a pergunta-chave que norteia todo o filme: "o que teria você feito? O que esperava que eu fizesse?" É um momento arrepiante que cristaliza aquilo de que "O Leitor" fala: do equilíbrio precário entre a luz e a escuridão, visto com a frieza decidida e distante do que poderia ser um filme ("tipicamente") alemão (e, de certa maneira, até o é; co-produção alemã, rodada na Alemanha com um elenco onde apenas Winslet, Ralph Fiennes e Lena Olin não são nativos).
Mas essa é apenas mais uma das ilusões de um filme que se esquiva a ser catalogado e está constantemente a mover o terreno debaixo dos pés do seu espectador. Não temos certeza que "O Leitor" seja um grande filme (há um final demasiado "certinho", por exemplo; há um requinte sem esforço que nos pergunta se há aqui de facto mais alguma coisa do que apenas uma adaptação de prestígio de um romance conhecido). Mas sabemos que nos deixa a remoer; e isso já é muito mais do que muitos grandes filmes contemporâneos conseguem.


12 Junho 2009 - Dúvida


Título original: Doubt
De: John Patrick Shanley
Com: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: EUA
Ano: 2008
Cores, 104 min
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Jorge Mourinha in PÚBLICO, 6 de Fevereiro
"Dúvida" não quer, nunca, ser mais do que o registo do trabalho de actor
Não se espere de "Dúvida" mais do que aquilo que é: a adaptação (eficiente mais do que inspirada), pelo próprio dramaturgo, da peça teatral que Diogo Infante encenou entre nós em 2007, com um elenco de luxo a brilhar muito alto nesta história sobre a fé e a dúvida, a bondade e a desconfiança, a intolerância e a abertura de espírito.
Num colégio católico do Bronx em 1964, a freira rígida que o rege com mão de ferro sente-se ameaçada pela lufada de ar fresco que o novo padre, progressista, traz, e uma jovem freira idealista que nota como o padre parece prestar especial atenção ao único aluno negro do colégio fornece-lhe a arma perfeita para ir atrás dele, levantando a dúvida sobre a idoneidade das suas intenções. John Patrick Shanley está objectivamente a "brincar com o fogo" na sua peça, ao introduzir questões de fé e de raça numa história inevitavelmente marcada pelos escândalos levantados pelo abuso sistemático de crianças por parte do clero americano, mas refreia inteligentemente quaisquer extrapolações abusivas ao concentrar a sua narrativa na batalha de certezas e dúvidas entre as três personagens principais, ao mesmo tempo que se retrai de inventar o que quer que seja visualmente para se limitar a registar as interpretações dos seus actores.
Claro que, com estes actores a carburar a cem a hora, dificilmente alguém ficaria mal visto - e se não há surpresa nenhuma em Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman serem sobreexcelentes, como é seu hábito, é inevitável deixarmo-nos surpreender por Amy Adams e Viola Davis, porque não as conhecemos tão bem e a sua entrega em nada fica atrás da das "vedetas". "Dúvida" não quer, nunca, ser mais do que esse registo do trabalho de actor, e ganha-se nessa modéstia, mas faltalhe o rasgo que lhe permitiria dar o salto para um grande filme. Assim como assim, já não ficamos mal servidos.


Luís Miguel Oliveira in PÚBLICO, 19 de Fevereiro
A primeira homilia do padre Seymour Hoffman refere-se ao assassinato do presidente Kennedy, "sucedido no ano passado", mas o ambiente de "Dúvida" lembra menos os anos 60 dos que os anos 50. Os do senador McCarthy, e todos os filmes e peças teatrais ("Dúvida" também parte de uma peça do próprio Shanley) que se fizeram em parábola da "caça às bruxas" do senador. A "bruxa", aqui, é "moderna" (a pedofilia), mas no fundo é irrelevante, como irrelevante é a hipotética culpabilidade da personagem do padre: o que Shanley filma é a convicção irracional e a sanha persecutória da personagem de Meryl Streep (por sua vez uma espécie de "bruxa", bastante arrepiante). Há uma austeridade (totalmente justificada) no tom de "Dúvida", mas fica por decidir se é o produto de uma opção estilística deliberada ou, como algumas cenas deixam desconfiar, o resultado de um academismo a precaver os seus limites.


João Lopes in sound + vision, 7 de Fevereiro

Com a adaptação da sua própria peça, Dúvida, John Patrick Shanley recupera um cinema eminentemente ligado aos poderes da palavra e às suas ambivalências. Logo também às qualidades de representação de actores como Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, ou ainda de excelentes secundárias como Amy Adams e Viola Davis — este texto foi publicado, por João Lopes, no Diário de Notícias (6 de Fevereiro), com o título 'Efeitos e actores especiais'.

Há uma velha máxima que diz que, em cinema, o melhor efeito especial é o ser humano, quer dizer, os actores. Convenhamos que não é uma ideia muito acarinhada nos nossos dias, sobretudo se pensarmos que há todo um público (des)educado para pensar que o “verdadeiro” cinema acontece sempre que duas imagens nos oferecem pelo menos três explosões...
Dúvida não será exactamente um dos filmes mais perfeitos que já se fizeram sobre o conceito católico de culpa e as questões morais que a ela se associam (afinal de contas, convém não esquecer que, em 1953, Alfred Hitchcock dirigiu esse filme sublime que se chama Confesso, com Montgomery Clift). Seja como for, ao adaptar a sua própria peça, o trabalho de John Patrick Shanley possui o mérito de revalorizar um cinema em que a palavra emerge como matéria vital da acção. Em boa verdade, deveremos mesmo corrigir essa asserção: a palavra acaba por se confundir com a própria acção, no sentido em que, ao falarem, as personagens jogam todos os trunfos da sua identidade.
As peripécias do filme (situado em 1964) remetem-nos para um tempo com inevitáveis ecos simbólicos na actualidade. Estamos perante as feridas interiores de uma América marcada pela morte brutal de John Kennedy e,ao mesmo tempo, vivendo um processo imensamente complexo de interrogação dos seus valores morais, com especial incidência no estatuto dos afro-americanos. Nesta perspectiva, Dúvida recupera o olhar crítico do melhor “cinema social” dos anos 50/60 ligado a nomes tão díspares como Otto Preminger ou Sidney Lumet.

9 Junho 2009 - 14º Aniversário do Cineclube




Sessão especial: Apresentação Filminho 2009
Terça-feira, 9 de Junho, 21h30, Entrada livre



Caríssimos,

Junho. Na 6ª feira, dia 5, temos Bombos em Amarante e, como é habitual, não temos filme programado para esse dia.

Mas Junho é também o mês de aniversário do Cineclube de Amarante (CA).

O CA faz, no próximo dia 9, 14 anos de existência. Efectivamente, o primeiro filme – Forrest Gump – foi exibido a 9 de Junho de 1995.

Recordo.O CA é uma associação sem fins lucrativos vocacionada para a promoção e divulgação da cultura cinematográfica e crê prestar uma inalienável e insubstituível função à comunidade amarantina. Não só por se assumir como único exibidor de cinema na cidade, mas, sobretudo, por procurar manter um nível elevado de qualidade, evidente na selecção e projecção dos filmes apresentados. Versátil na sua programação, o CA procura cativar todos os (potenciais) espectadores: do cinema de autor, a filmes mais comerciais (como os premiados pelos Óscares), passando pelo cinema infantil. Outras iniciativas, como conferências, debates com realizadores, cinema ao luar, testemunham a matriz impulsionadora e o carácter dinâmico das actividades do CA (pronto, não tão dinâmico como podia - e devia? - ser….)

O que interessa é que durante este período, exibimos, em programação normal e ciclos temáticos, quase 1000 filmes, em mais de 1.300 sessões. Realizámos acções de formação, exposições, promovemos encontros com realizadores e actores, participámos activamente em seminários, colóquios e encontros sobre cinema, marcamos presença regular nos festivais e iniciativas de carácter cultural e cinematográfico.

Esta breve (espero) introdução para pedir a vossa particular atenção ao convite para a noite de 9 de Junho. Teremos bolo e espumante. Parece-me que – e apesar de – temos razões para comemorar. Apareça quem quiser. São todos bem vindos.

Manuel Carvalho

Convite


O Filminho é a Festa do Cinema Galego e Português, realizada simultaneamente em V. N. Cerveira e Goian (Tomiño), exibindo filmes de criadores-realizadores tanto portugueses como galegos. A particularidade deste festival radica na projecção dos filmes em competição em salas de ambos os lados da fronteira.

Como afirma André Martins, Director do Filminho, “é a magia da imagem que é celebrada”. E acrescentamos: E a magia (da imagem) porque se furta à clausura de espaços rígidos, sejam físicos ou mentais, é trans-fronteiriça. Porquê? Porque o Cinema é/deve ser manifestação desinteressada – no sentido kantiano – do Artista. Nesta medida é hierofania de uma singularidade criadora que aspirando à consagração (aceitação/rebelião?) universal se eleva, paradoxalmente, ao universo da trans-subjectividade. Como fim em si mesmo, o Cinema desvela-se enquanto Arte do vísivel, ou do sensível Absoluto. Mas também do Invisível. Do que não é imediatamente perceptível.

No dia 9 de Junho, o Cineclube de Amarante faz 14 anos de Existência. A Direcção do Cineclube decidiu comemorar o aniversário com Imagens. Imagens em movimento. Imagens partilhadas.Assim, exibirá 5 curtas-metragens, projectadas no Filminho de 2008, contando com as presenças do Director do Filminho, André Martins, do Programador português do Filminho, Paulo Martins e de um realizador (a aguardar confirmação de qual dos 5 estará presente. Só um que não há dinheiro para mais!!!).

Venha celebrar connosco a “Magia da Imagem”

A existência/resistência do Cineclube de Amarante

5 Curtas-metragens:

Ossudo
, de Júlio Alves, Animação, Portugal, 2007, 14'
Cousas do Kulechov, de Susana Rey, Experimental, Galiza, 2008, 21'
Antes de Amanhã, de Gonçalo Galvão Teles, Ficção, Portugal, 2008, 25'
Os Señores do Vento*, de Xurxo González, Documentário, Galiza, 2008, 10'
Deus Não Quis, de António Ferreira, Ficção, Portugal, 2007, 15'


*
Fragmento do programa da Televisión Galega Onda Curta com uma entrevista aos "Señores do vento" e ao realizador, Xurxo González.



29 Maio 2009 - Revolutionary road


Título original: Revolutionary Road
De: Sam Mendes

Com: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates

Género: Drama

Classificacao: M/16

Origem: EUA/GB

Ano: 2008

Cores, 119 min

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João Lopes in Diário de Notícias, 31 de Janeiro

Já lá vão onze anos desde que o mundo foi abalado por um fenómeno chamado «Titanic». Para além dos espantosos números de bilheteira, o filme de James Cameron conseguiu a proeza de consagrar um novo par romântico: Kate Winslet e Leonardo DiCaprio.
Talvez se esperasse que Winslet/DiCaprio se transformassem numa "receita" de muitos filmes, à maneira de outros pares clássicos de Hollywood. Mas não. Foi preciso esperar até agora para os vermos juntos naquele que é um dos títulos fortes da produção americana de 2008: «Revolutionary Road», de Sam Mendes. Muita coisa mudou. Leonardo DiCaprio, porventura o mais subtil actor americano da geração nascida na década de 70, continuou a exibir a sua versatilidade através do trabalho com Woody Allen («Celebridades»), Steven Spielberg («Apanha-me Se Puderes») ou Martin Scorsese («Gangs de Nova Iorque», «O Aviador» e «Entre Inimigos»). Quanto a Kate Winslet, a sua fulgurante maturação desemboca na espantosa composição em «Pecados Íntimos», de Todd Field. «Revolutionary Road» nasce da confluência de tudo isso (para além de valer a pena não esquecer que Kate Winslet e Sam Mendes são casados desde 2003): estamos perante um filme ancorado no trabalho específico dos actores, sendo inevitável recordar que a experiência do realizador como encenador teatral não é alheia à excelência dos resultados. Mas seria redutor encarar «Revolutionary Road» como um mero tour de force dos actores. É bem certo que eles são, de uma só vez, cristalinos e imprevisíveis na representação das crises de um casal do Connecticut, em meados dos anos 50. Seja como for, ao adaptar o romance homónimo de Richard Yates (publicado em 1961), a realização de Sam Mendes visa a complexidade de uma época de grandes transformações nos modos de vida da "classe média", desse modo apostando na revitalização do género melodramático tal como foi cultivado por mestres como Vincente Minnelli ou George Cukor. Da arquitectura da época ao kitsch dos automóveis ou elementos de decoração, nada disso existe como ostentação. Ao contrário das ficções de raiz televisiva, aqui nada é estritamente decorativo. Através de elementos como esses, Sam Mendes ajuda-nos a perceber a dolorosa distância entre a ideologia de felicidade de uma época e os sentimentos mais fundos, porventura menos confessáveis, de cada personagem: «Revolutionary Road» é um filme sobre as diferenças entre a utopia e a realidade, o desejo de amar e a crueza, afinal banal, de uma relação amorosa.

22 Maio 2009 - O Wrestler


Título original: The Wrestler
De: Darren Aronofsky
Com: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
Género: Drama
Classificacao: M/16
Origem: EUA
Ano: 2008
Cores, 115 min
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Luís Miguel Oliveira in PÚBLICO, 26 de Fevereiro
É um filme sobre glórias passadas e queda - Randy, como Rourke, foi "grande" nos anos 80
Mickey Rourke não é apenas o actor de "O Wrestler". É o seu tema, o seu objecto, a sua razão de ser. Diz-se muitas vezes que todos os filmes acabam por ser uma espécie de "documentário" sobre os seus actores. É verdade, e quanto mais o tempo passa sobre um filme mais essa verdade é evidente (como dizia alguém, o destino da "ficção" é tornar-se "documento"). Ainda assim, é raro encontrar um filme que, como "O Wrestler", leve essa ideia tão a peito. O seu acto essencial é ser testemunha de uma presença, da presença de um actor, da presença deste actor. Sem Rourke - e sem a história de Rourke, que está, por assim dizer, "incrustada" em cada milímetro do seu corpo e do seu rosto - o filme não faria sentido, ou faria um sentido completamente diferente.
Claro que a dissociação continua a ser possível, e não só possível como desejável. É um actor e uma personagem, a sobreposição não é absoluta, e a história de Mickey Rourke não é bem a história do "wrestler" Randy the Ram. Mas há ecos de um no outro, ou não fosse "O Wrestler" um filme sobre glórias passadas e, se não sobre a decadência, sobre uma queda, um confronto com a vulgaridade do mundo.
Randy, como Rourke, foi "grande" nos anos 80, e agora deixou de ser capaz de encontrar um espelho que reflicta essa grandeza - não tão longe assim, e é uma lembrança que nos ocorre a certa altura, da Gloria Swanson do "Sunset Boulevard" de Billy Wilder, esse filme sobre "come backs" e sobre o crepúsculo dos deuses... É o mesmo mundo "encolhido", e dir-se- ia que é nisso que Darren Aronofsky pensa quando trata a relação do enorme corpo de Rourke com certos décors. As cenas no supermercado onde Randy faz uns biscates no intervalo entre dois combates, por exemplo: há ali uma espécie de desproporção, como se Randy fosse o protótipo do "leão enjaulado"...
Um mundo vulgar, mas cheio de dignidade. A principal proeza do olhar de Aronofsky está nessa justeza. Consegue filmar um mundo, ou submundo, tão codificado como os dos "wrestlers" sem tombar no grotesco ou na caricatura. E confrontar-se, por sua vez, com uma vulgaridade corriqueira, com uma urbanidade cinzenta e deprimente, sem nunca as menorizar nem sequer julgar, trazendo-lhes uma luminosidade surpreendentemente tocante.
As cenas com Rourke e a maravilhosa Marisa Tomei, sobretudo as cenas diurnas dos seus encontros no café ou nas lojas, trabalham numa simplicidade despojada de adornos que é sempre uma maneira de fazer justiça às personagens. Numa dessas cenas Randy faz o elogio dos anos 80 através do "rock", aquele "rock FM" não muito sofisticado que ele gosta de ouvir ("depois", diz, "apareceu o Kurt Cobain e estragou tudo"). Noutra cena joga, com um miúdo seu vizinho, um velhíssimo jogo de consola, enquanto o miúdo lhe fala dos jogos novos, de que Randy já ouviu falar mas não tem interesse em experimentar. Pequenas reiterações do carácter "perdido no tempo" da personagem de Rourke.
Aronofsky, em vez de filmar para a "recuperar", oferece-lhe a possibilidade do mergulho total nessa "perdição". Mas no último plano do filme (que é, afinal de contas, um "mergulho") a diferença entre uma maldição e uma bênção torna-se uma questão de perspectiva: Randy está destinado a ganhar-se por aquilo que o perde. E isso é muito bonito.

15 Maio 2009 - A troca


Título original: Changeling
De: Clint Eastwood
Com: Angelina Jolie, Gattlin Griffith, Michelle Martin, John Malkovich
Género: Drama
Classificacao: M/12
Origem: EUA
Ano: 2008
Cores, 141 min
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Luís Miguel Oliveira in PÚBLICO, 9 de Janeiro
Este é um filme de um Clint que trocou o instinto profundo que alimenta os seus melhores filmes pelas boas maneiras que dominam os seus filmes assim-assim.
Nos tempos heróicos em que os miúdos dos "Cahiers" tomaram em mãos a tarefa de resgatarem Samuel Fuller ao opróbrio do ogre-vermelho Georges Sadoul (e à indiferença dos americanos), o mais miúdo deles todos, Luc Moullet, estabeleceu uma tipologia definitiva: havia dois Fullers, um Fuller "temperamental" e um Fuller "racional", e o primeiro era mais interessante do que o segundo.
Fora, eventualmente, o plágio, não incorremos em nenhum crime se transpusermos essas categorias para Clint Eastwood, pela boa razão de que elas nos vêm à memória durante o visionamento de "A Troca". Este é um filme de um Clint em modo razoável (digamos, uma razão sem fúria), um Clint que trocou o instinto profundo que alimenta os seus melhores filmes (o instinto que, como em Fuller, originou não poucos equívocos) pelas boas maneiras que dominam os seus filmes assim-assim (se quiserem, "As Cartas de Iwo Jima" versus "As Bandeiras dos Nossos Pais"). Um Clint que prestou menos atenção às suas tripas e mais àquela conversa do "último dos clássicos" em que teria que acabar por acreditar de tanto lha repetirem aos ouvidos. Inteligente e competente, mas também disperso e decorativo (e coisa rara em Clint, com planos a mais, cenas que se prolongam sem outra razão aparente que não seja fazer brilhar os actores), "A Troca", se não for o filme mais indistinto que Clint fez desde "The Rookie" (em 1991), é o que tem mais momentos indistintos, mais redondos, que mais se contenta com a eficácia melodramática, que mais cultiva o bem-acabado pelo bem-acabado. Falha até a relação directa com a Hollywood clássica (tudo se passa em Los Angeles nos anos 20 e 30, fala-se de Óscares, de Tom Mix e de filmes de Capra e de DeMille), esboçada mas reduzida a rodapés referenciais nunca verdadeiramente integrados. Isto deixado claro, podemos abrir a porta da ambivalência. Nem tudo é indistinto em "A Troca". Quase subrepticiamente vislumbram-se "flashes" de um trabalho que vem de trás, continuidades "eastwoodianas".
Marcas de "autoria", que são diferentes de simples marcas de "reconhecimento". Tal como não se trata de resgatar o "todo" pela "parte", antes de reiterar uma verdade óbvia: entre um filme pouco convincente de um bom cineasta e um filme pouco convincente de um cineasta qualquer é sempre preferível o filme pouco convincente do bom cineasta. Se, apesar do exposto, não conseguimos fazer "fine bouche" a "A Troca" isso acontece pelas duas razões que tentaremos explicar a seguir. Uma, a insistência, tremendamente "eastwoodiana", num conflito entre o indivíduo e um grupo, conflito que a lei, bloqueada, deixou de poder regular. Richard Schickel, na entrevista concedida ao Ípsilon há semanas, lembrava que em "Dirty Harry" o confronto fundamental não era entre a personagem de Eastwood e o assassino, mas entre Eastwood e a corporação policial a que ele pertencia. A polícia de "A Troca" lembra a polícia de "Dirty Harry", sendo como é um paroxismo de corrupção e incompetência, incapaz de aplicar a lei sem ser de forma deturpada, e em função de interesses próprios. Ou seja, como em tantos filmes de Eastwood, tudo está "fora da lei". O desenho deste estado de coisas e a sua preponderância como conflito essencial mantêm o filme coeso durante boa parte da sua duração, tanto que, quando desaparecem (essa parte da intriga "resolve-se" a uma boa meia-hora do final), "A Troca" perde força, e se esvai em diversos "falsos epílogos", como um longo apêndice justificado apenas pela necessidade de continuar a conduzir o melodrama sentimental (Angelina Jolie à procura de sinais do filho desaparecido) e o melodrama de crime e castigo (toda a história com o "serial killer", espécie de Scorpio dos anos 20 com uns pozinhos de "Mystic River").
Neste cenário, neste território "sem lei" que está muito próximo do do "western" ("genuíno" ou "urbano"), a personagem de Angelina Jolie é um equivalente óbvio de várias personagens de Clint. Sozinha e obstinada, ela é um pouco a "cowgirl" forasteira que chega a uma cidade corrupta e, por efeito directo ou indirecto da sua acção, a mete na ordem ("mutatis mutandis", é o momento em que a corrupção policial é desmascarada e condenada). É a narrativa que a põe nessa situação, certo; mas é a construção visual da sua personagem que a reforça, como se o seu modelo fosse o próprio... Clint Eastwood, o "cowboy" dos anos 60 e 70 (o sorriso desafiador, o sobrolho franzido, os grandes planos com a aba do chapéu a cair sobre a testa). É a verdadeira versão feminina do "Clint-ícone", com, no lugar da cigarrilha e da barba por fazer, uns lábios muito vermelhos, uns olhos muito azuis, um chapéu cor de azeitona (sempre tudo da mesma maneira, como se fosse de uniforme).
Espécie de cúmulo de um narcisismo temperado por um impulso pigmaleónico: Clint cria uma versão de si mesmo, um "travesti ao contrário", numa das mulheres mais bonitas do mundo. É a segunda razão.
De qualquer modo, não desesperemos: "Gran Torino" chega num par de meses, e pelo seu temperamento juramos nós.

8 Maio 2009 - Milk


Título original: Milk
De: Gus Van Sant
Com: Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin
Género: Drama
Classificacao: M/16
Origem: EUA
Ano: 2008
Cores, 128 min
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Vasco Câmara in PÚBLICO, 30 de Janeiro Gus Van Sant leva-nos até "somewhere over the rainbow". O crítico Nathan Lee, na revista "Film Comment", lançou uma "boutade" que pegou: escreveu que "Milk" é "o mais ''straight''" dos filmes de Gus Van Sant - um cineasta homossexual. Quis ele dizer que o filme sobre o autarca da câmara de São Francisco, homossexual (o primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um cargo público nos EUA, estávamos nos anos 70), que ajudou a fazer de São Francisco um viveiro para as aspirações de uma comunidade e que hoje é ícone da militância gay, era um filme... convencional. Isso, "straight", um filme biográfico, um "biopic", com voz "off" e tudo. A "boutade" é irresistível. Mas gostaríamos de perceber o que é que tem de convencional contar uma história destas como quem conta a história de uma rua - a Castro Street, onde Milk chegou, viu e venceu (até ser morto por um colega de câmara, Dan White, em 1978) - como se essa rua fosse a rua daqueles filmes que a desaparecida Hollywood inventava para serem exaltadas as qualidades americanas. É isso mesmo: com uma história da História gay Gus Van Sant faz "americana", esse género tradicional, que era muito sobre o "centro" das coisas e sem permitir "desvios", que o cinema clássico americano cultivou no passado. Podemos dizer, aliás, do razoavelmente burlesco Milk, personagem em que Sean Penn miraculosamente desaparece: Mr. Milk goes do Castro, isto é, à Câmara de São Francisco, como Frank Capra pôs James Stewart, Mr. Smith, a ir a Washington, isto é, a pedir a palavra. Isto de ser aparentemente convencional, não tem nada de convencional. Portanto: é toda a América numa rua - e uma rua gay. ("Milk" é mesmo um filme político.) E essa forma de passar da história individual à história de muitas pessoas gay e, mais um passo em frente, à história de todas as pessoas, gay ou não, esse salto da rua ao país (e da América a todos nós), faz com que se sinta em "Milk" a vibração de uma epopeia humana. Concedendo que, depois de "Sunset Boulevard" (1950), um filme narrado por um morto não é proeza - o "testamento" que Milk deixou, para o caso de ser assassinado, coisa que previa que lhe iria acontecer, é a voz que nos acompanha em "Milk" -, já é assinalável, e é a pedra de toque deste filme comoventíssimo, o resultado da utilização das imagens de arquivo. Com elas, e com aquilo que Van Sant aprendeu nos seus filmes mais experimentais, como "Gerry" (2002), "Elephant" (2003) ou "Last Days" (2005) - de que "Milk" está próximo, mais do que de filmes, esses sim, convencionais como "O Bom Rebelde" (1997) ou "Finding Forrester" (2000) -, o realizador arrebata-nos. Leva-nos para um mundo imaginário, onírico, "somewhere over the rainbow". De um só fôlego, torna-se o criador de uma fábula - daquelas que falam de nós com uma luminosidade portentosa -, um prestidigitador da iconografia gay (o "Somewhere over the Rainbow" de Judy Garland é despojado e entregue à sua mais desesperada fantasia), um cronista de um período da História americana e de uma cidade. Desaparecida, que não volta mais (será que existiu ou foi mistificação da memória?). Milk morreu, depois veio a Sida, e o sexo e os anos 70 ficaram retidos no domínio da fantasia mais nostálgica, sobrando um extremado sentimento de perda. Por falar dos mortos: das coisas mais espantosas de "Milk" é a sensação de que estamos a ser olhados, interpelados, por quem já aqui passou, por quem já é História e deixou legado. "Milk" fala connosco, hoje. Da Proposta 6, que nos anos 70 quis impedir os homossexuais de serem professores (Milk ajudou a derrotar essa proposta legislativa), à Proposta 8, que hoje, na mesma Califórnia, negou a possibilidade de casamento de pessoas do mesmo sexo...? Sim, disso também, mas muito mais do que isso, o olhar é abrangente, é para a América inteira, é para os que se sentem excluídos. "Milk", pedaço de fantasmagoria que, afinal, deixa em aberto uma hipótese de renascimento, é um filme para todos. "É preciso dar-lhes esperança", dizia Harvey Milk. Tem-se dito que é o primeiro fantasma de Barack Obama a aparecer no cinema americano. Numa entrevista à revista "Attitude", Gus Van Sant concedia que sim. E ainda alguém consegue dizer que é um filme "convencional"?

1 Maio 2009 - O casamento de Rachel


Título original: Rachel Getting Married
De: Jonathan Demme
Com: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Debra Winger
Género: Drama
Classificacao: M/12
Origem: EUA
Ano: 2008
Cores, 114 min
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Vasco Câmara in PÚBLICO, 21 de Fevereiro
"O Casamento de Rachel" dá microfone a uma família para que ela se exponha. É nessa forma de dar e receber que está a festa.
E lembrámo-nos dos Talking Heads... Da forma como o "pós-punk" esquizóide, tal como praticado por três rapazes e uma rapariga, todos "arty", americanos e "educated", foi abraçando a "world music", o "outro", com sentido de aventura, exotismo e mantendo-se esquizóide até para espantar o politicamente correcto.
Lembrámo-nos da música dos Talking Heads (e por uma razão: Jonathan Demme, o realizador de "O Casamento de Rachel", interessou-se em 1984 pela banda em "Stop Making Sense") nas sequências de casamento de "Rachel Getting Married": todas as cores e ritmos do mundo, hip hop, samba, soul, convivem numa casa americana, abastada e "educated" - e multirracial, e algo esquizóide e razoavelmente exótica.
Houve quem se risse com essa visão que irrompe, exuberante: uma América demasiado ideal, confinada a um "nicho" social e cultural, disse-se, um olhar paternalista, e mais desejo e fantasia do que outra coisa. Demme retorquiu (citamos a conferência de imprensa no Festival de Veneza de 2008) que essa é a sua América, ela existe, é a que sempre conheceu, apenas não aparece nos filmes - e criou um pequeno acontecimento quando sentenciou que "O Casamento de Rachel" mostrava o desejo de uma nova era, "desejo de Obama".
Seja como for, o que podemos dizer é que no cinema de Demme, e falamos daquele que está antes de "O Silêncio dos Inocentes" (1991) ou de "Filadélfia" (1993), a energia, a excentricidade sempre foram o "american way", forma da América se cumprir ("Something Wild", de 1986, é um título emblemático). É essa a América que Demme abraça. É isso, o abraço, mais do que qualquer efeito de assinatura, o traço do cinema do realizador: a disponibilidade, calorosa, para personagens que começam por parecer excêntricas, bizarras, e que acabam por "fazer corpo" e ser o corpo - americano.
Esse abraço é dado aos membros da família de "O Casamento de Rachel". Kym (Anne Hathaway), toxicodependente, sai por um fimde- semana da clínica de desintoxicação para participar nos rituais do casamento da irmã mais velha, Rachel (Rosemarie DeWitt). Família abastada, multirracial (tudo sem ênfase, é assim, não há volta a dar, pós-racial então), rituais de música e dança do mundo. E é como se estivéssemos lá, com a ajuda de câmaras digitais entregues aos actores, que filmam o que se passa para tudo ter o aspecto de "home movie", e com a presença tutelar de Robert Altman ("O Casamento", de 1978) e do Dogma 95 - inspirações assumidas por Demme para destruir e voltar a erguer o formato da "comédia dramática".
Mas se a família é um lugar estranho para se estar, se os esqueletos começam "a sair do armário" num fim-de-semana de festa, os ressentimentos, as acusações - uma mãe (Debra Winger) emocionalmente afastada, a disputa entre as irmãs, uma morte no passado da família... -, Demme não faz um filme sobre "segredos e mentiras". Como naquela sequência em que a família discute quando entra em casa, iluminando as várias assoalhadas na escuridão, "O Casamento de Rachel" vai dando a palavra a cada uma das personagens: dá-lhes microfone e convoca-as para que elas façam o seu "outing". Pode haver aqui Altman, mas sem o cinismo. Os procedimentos podem também ser os do manifesto dinamarquês de Lars von Trier e dos outros, mas sem a ideia de que o cinema é um acto de violação. É por isso que o filme de que nos lembramos, e talvez não seja por acaso que em relação a ele se tenha falado também de uma "nova era" americana, é "Milk", de Gus Van Sant - um filme em que as personagens olham para o espectador (o que não costuma acontecer nos filmes de Van Sant) e não se esquivam ao olhar do espectador.
É nessa disponibilidade para abrir feridas e sará-las, nesse "outing", forma de dar e receber, que está a festa de "O Casamento de Rachel".

Maio 2009 - Cartaz


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24 Abril 2009 - Vicky Cristina Barcelona


Título original: Vicky Cristina Barcelona
De: Woody Allen
Com: Penélope Cruz, Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hall
Género: Comédia, Romance
Classificacao: M/12
Origem: Espanha/EUA
Ano: 2008
Cores, 96 min
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Luís Miguel Oliveira in PÚBLICO, 23 de Janeiro
"Vicky Cristina Barcelona" é um filme sobre a passagem do tempo, os amores e as oportunidades perdidas, um jardim chekhoviano plantado à beira do Mediterrâneo.
Mandaria uma ideia feita (e muito, digamos, "publicitária") sobre Woody Allen dizer que ele foi para Barcelona para se "revigorar". Parece-nos questão de somenos, essa. A ordem de necessidade é doutro género: foi para Barcelona porque precisava de ir para algum lado que não fosse Nova Iorque, que não fosse na América. Mais do que o londrino "Match Point", pequeno ensaio dostoievskiano-bressoniano sobre o crime, o castigo e o acaso, "Vicky Cristina Barcelona" é um filme sobre algo que na literatura também se transformou em género ou subgénero: os americanos no estrangeiro. Escolheu Barcelona e os seus (m)ares mediterrânicos, e o filme confere sentido a essa escolha, mas podia ser outra cidade qualquer.
Temos assim duas jovens americanas arrancadas à sua cápsula nova-iorquina para umas férias de Verão na capital da Catalunha. Vicky (Rebecca Hall, maravilhosa) e Christina (Scarlett Johansson, mais indolente do que nunca), muito amigas mas diferentes em temperamento como a água e o vinho. Christina é candidata a artista, saltita de namorado em namorado, tem costumes que a moralidade comum daria por "dissolutos"; Vicky é mais conservadora, mais "uptight", tem casamento marcado com um rapaz novaiorquino tão "uptight" como ela, a moralidade comum não encontraria muita coisa que lhe reprovar. Depois o desenvolvimento da história confirma isto, assim como os dilemas das raparigas nascerão em grande parte das respectivas configurações psicológicas, mas ainda antes de acontecer alguma coisa já a voz "off " nos explicou como eram Vicky e Christina, sobrepondo-se aos planos que as mostram, de táxi, no trajecto entre o aeroporto e a cidade (em sequência que abrira com a câmara focada nos grandes mosaicos que decoram o aeroporto de Barcelona, primeiro e subliminar sinal de que as raparigas chegaram a terra perigosa e sanguínea, bem diferente da sóbria e neurótica Manhattan). E a voz "off" de "Vicky Cristina Barcelona" tem que se lhe diga: em dicção rápida e radiofónica, instila gravidade (o narrador fala no mesmo tom em que narraria uma invasão de marcianos, por exemplo) e uma medida de urgência, como se Woody a usasse também para cortar caminho, para ir directo ao essencial, para não perder tempo com o que é da praxe. A gravidade e a urgência trazem à história um sentido de angústia que começa por parecer desproporcionado, mas que no fim se transformou na exacta proporção da angústia em que a história quer (e consegue) trabalhar.
Na "mise en scène" de Woody Allen isto traduz-se por uma secura invulgar, transições rápidas entre cenas (contem os planos de ligação, as coisas que são "da praxe": quase não existem), uma velocidade interior que nunca é certa (a primeira cena de sedução entre Javier Bardem e Scarlett no quarto dele, tão longo preliminar para tão abrupto desenlace), mesmo os campos-contracampos têm uma tensão especial. Claro que a grande estranheza com que as raparigas se confrontam é menos a cidade (reduzida a apontamentos, a Sagrada Família, o Parc Guell, etc, mais uma visita às Astúrias porque para Vicky ceder não basta a estranheza, é precisa a "estranheza dentro da estranheza") e mais os seus habitantes. Bardem, primeiro, Penélope Cruz, depois.
Na fronteira com o estereótipo, Bardem e Cruz são quase "monstros" - ele a hipérbole do "macho latino", hedonista e sexualmente insaciável, ela um expoente da feminilidade "mediterrânica", amante tão possessiva como maternal, uma força da natureza como uma Loren ou uma Magnani. O que, através deles, Woody Allen faz projectar diante de Vicky e Christina é uma espécie de filme da latinidade, sanguínea e intempestiva, totalmente incompreensível para as raparigas, que só serve (sempre como "projecção") para lhes criar a perspectiva de qualquer coisa que se passa demasiado depressa e demasiado profundamente para que elas a consigam agarrar. A gravidade agudiza-se (passe o paradoxo), "Vicky Cristina Barcelona" transforma-se num filme sobre a passagem do tempo, sobre os amores e as oportunidades perdidas, um jardim chekhoviano plantado à beira do Mediterrâneo. A angústia estampada nos rostos de Vicky e Christina quando o filme as deixa explica por que razão Woody começara por insistir nos seus costumes: nenhuma delas está certa, no universo alleniano a "moralidade" nunca foi uma resposta à altura do fatalismo que a engole.