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1 Junho - 3ª feira - Dia Mundial da Criança - 18 horas - Artur e a Vingança de Maltazard


Título original: Arthur et la vengeance de Maltazard

De: Luc Besson

Com: Snoop Doggy Dogg (Voz), Asa Butterfield (Voz), Mia Farrow (Voz), Freddie Highmore (Voz)
Género: Animação, Aventura
Classificação: M/6
Origem: FRA
Ano: 2009
Cores, 93 min


Depois de longos meses de espera, chega finalmente o fim do décimo ciclo da Lua. Artur pode então regressar ao mundo dos Minimeus e reencontrar Selénia, a princesa que ele nunca conseguiu esquecer. No pequeníssimo mundo subterrâneo, todos se aprontam para o receber com uma enorme festa de boas-vindas. Mas tudo se complica quando o pai de Artur decide que as férias do filho em casa dos avós terminaram, enviando uma mensagem de que chegará nesse mesmo dia para o levar de volta.
Quando está prestes a partir com o pai, uma estranha aranha entrega-lhe um grão de arroz com um pedido de ajuda de Selénia. Nesse momento ele compreende que, independentemente de tudo o resto, terá de regressar à vila dos Minimeus e ajudar a salvar o seu pequeno mundo...
O filme sequela de "Artur e os Minimeus", também realizado pelo francês Luc Bresson.


22 Dezembro - Um Conto de Natal


Título original: Un conte de Noël

De: Arnaud Desplechin

Com: Catherine Deneuve, Jean-Paul Roussillon, Anne Consigny
Género: Comédia, Drama
Classificação: M/12
Origem: França
Ano: 2008
Cores, 150 min
Site


Junon e Abel tiveram inicialmente dois filhos, Joseph e Elizabeth, mas Joseph acaba por morrer aos sete anos devido a uma doença genética pois nem os seus pais, nem a irmã, nem o filho que conceberam para o tentar salvar, Henri, eram dadores de medula compatíveis. Junon e Abel têm ainda um quarto filho, Ivan, e tentam recuperar e esquecer a morte do mais velho. Mas as relações familiares vão-se deteriorando com o passar dos anos. Enquanto Elisabeth se torna numa dramaturga melancólica, Henri é banido e torna-se na ovelha negra da família e Ivan é o mais calmo de todos. Até ao dia em que descobrem que também Junon está doente e precisa de um transplante. Será que alguém na família será compatível e será que conseguem resolver as suas diferenças?

Eurico de Barros, in DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 21 de Maio de 2009
Uma família francesa de Roubaix junta-se no Natal. Mas a reunião não é apenas para celebrar a quadra. É também para decidir qual dos seus membros vai dar medula à matriarca (Catherine Deneuve), que descobriu que tem um cancro e precisa de um transplante. E apenas duas pessoas são compatíveis com ela: o filho mais negro, a ovelha negra da família, um irresponsável crónico, e o neto adolescente, a passar uma fase “perturbada”. Arnaud Desplechin gere o psicodrama vivido por este núcleo familiar em plena época da fraternidade e do amor por excelência, em várias rotações dramáticas e climas emocionais, multiplicando os registos visuais e entregando-se a uma permanente jiga-joga temporal e estilística que até chegada à banda sonora. O filme parece ter tudo a mais: personagens, cambiantes dramáticos, diálogos e duração, comportando-se como uma criança hiperactiva e caprichosa. Mas se Desplechin quer demonstrar é que a família é uma entidade organizada que tende para o caos, então a demonstração está feita com toda a convicção. E um grande elenco a ajudar.

João Lopes, Cannes 2008
Digamos, para simplificar, que Arnaud Desplechin é um dos maiores cineastas europeus em actividade. Entre os franceses, será mesmo o que, da geração pós-André Techiné, mais e melhor tem sabido afirmar uma via de reinvenção do melodrama clássico. O seu novo filme é a confirmação exuberante disso mesmo: «Um Conto de Natal» reúne uma família de personagens — e alguns actores com diversas conotações "familiares": Catherine Deneuve, Mathieu Amalric, Chiara Mastroianni, etc. — em ambiente de festas natalícias para desenhar um enorme fresco (balzaquiano, apetece dizer) sobre a condição humana, comovente e telúrico.


Luís Miguel Oliveira, in PÚBLICO, 21 de Maio de 2009
Relações de Sangue
Reunião de uma família dispersa, fragmentada, disfuncionalmente "sui generis".
Arnaud Desplechin começou por ser saudado, quando estreou a sua primeira longa-metragem ("La Sentinelle", de 1992), por abrir um caminho "pós-nouvelle vague" para o cinema francês, por encontrar uma maneira de viver com as sombras tutelares do moderno cinema. Talvez fosse um exagero, talvez não. Mas é interessante lembrar isto quando se verifica que a obra de Desplechin, desde o princípio colocada sob o signo de uma discussão sobre a "família do cinema francês", ainda não deixou de se debruçar sobre questões de famílias, filiações e (em "Comment Je Me Suis Disputé", de 1996) de coisas aproximáveis do testemunho geracional.
Vem muito ao caso a propósito de "Um Conto de Natal", filme que tem no seu centro a reunião de uma família dispersa, fragmentada, disfuncionalmente "sui generis". Uma família marcada pela doença (do sangue), a ponto de ter crescido por causa dela: um dos filhos (a personagem de Mathieu Amalric) foi gerado na expectativa de vir a ser um dador de medula compatível com o irmão mais velho, acometido de um cancro do sangue (mas a criança não se revelou compatível, o irmão morreu, e ficou com o estigma de ser um filho "inútil").
Agora - sempre o sangue - é a mãe (Catherine Deneuve) que sofre de uma doença semelhante, e é este o cenário da reunião familiar, propício à erupção de revelações, declarações e manifestações de sentimentos contraditórios. Se Desplechin ainda não tinha feito dois filmes que se parecessem um com o outro, fê-lo agora: "Um Conto de Natal" é um filme, digamos, na mesma linha de "Reis e Rainha", a sua ficção precedente. Um filme de temperaturas variadas, calor e gelo, o calor e o gelo que marcam as relações entre as personagens mas também as inflexões de tom com que Desplechin conduz a sua narrativa, fazendo a gravidade e a irrisão coexistirem (às vezes, tornando impossível a sua perfeita distinção).
Mas é também, tal como "Reis e Rainha" - e voltamos ao princípio -, um filme que se propõe reencontrar uma formulação moderna do "romanesco", um "cinema de argumento" depois da "nouvelle vague" - nesse sentido, e mesmo se "síntese" não é a palavra adequada, "Um Conto de Natal" trabalha como se estivesse a casar a sensibilidade mais fria, mais analítica, de algumas coisas de Resnais com o envolvimento auto-consciente de alguns filmes de Truffaut.
Fricção resolvida em sobrecarga, em acumulação, quase em excesso. "Um Conto de Natal", como "Reis e Rainha", desdobra-se em personagens, em digressões e "portas" narrativas; em peripécias ou em relatos de peripécias; os diálogos, à beira da torrencialidade, estão sempre a implicar com a velocidade do filme, numa perturbação que se estende ao tratamento da "découpage", estranhíssima e sempre "irregular" - nalgumas situações é quase como ver um plano-sequência a ser desmembrado a golpes de "jump cut".
Sobrecarga ainda no décor da casa onde todos se encontram, repleta de adereços, objectos e fotografias, ou de televisões por onde entram filmes antigos (alguns religiosos, como "Os Dez Mandamentos"), e mil e uma remissões para as mais díspares referências - aquela casa é um mapa da "história cultural" daquela família, o seu museu ou, visto que a situação exige que lidem com o fantasma da sua mortalidade, o seu mausoléu.
Muito mais do que o sangue, une-os a todos o passado e o futuro, e é esta a verdadeira "comunhão" que permite a superação, ou a interrupção, dos atritos. Singularmente sedutor e, no fim de contas, bastante justo

4 Dezembro - Welcome


Título original: Welcome

De: Philippe Lioret

Com: Vincent Lindon, Firat Ayverdi, Audrey Dana
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: França
Ano: 2009
Cores, 110 min
Site


Bilial (Firat Ayverdi) tem apenas 17 anos, mas já uma longa história para contar. Depois de uma demorada e tortuosa jornada de três meses desde Mossul (Iraque), é detido em Calais, no lado francês do Canal da Mancha, ficando impossibilitado de terminar a viagem até Inglaterra.
Em Londres, espera-o Mina (Derya Ayverdi), a namorada, que emigrou do Iraque com a família há algum tempo. Determinado a voltar a vê-la, Bilial inscreve-se nas piscinas locais com um objectivo: treinar intensivamente para atravessar, a nado, o Canal da Mancha. É então que conhece Simon (Vicent Lindon), o instrutor de natação, perdido na vida após a separação da mulher. Bilial e Simon tornam-se assim cúmplices num plano perigoso e ilegal que irá pôr em causa muitas das coisas em que sempre acreditaram...


Dossier de Imprensa

25 Setembro - Home, Lar Doce Lar


Título original: Home

De: Ursula Meier

Com: Isabelle Huppert, Olivier Gourmet, Adélaïde Leroux
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: França
Ano: 2008
Cores, 97 min

Uma auto-estrada por acabar, abandonada há dez anos, degrada-se lentamente até ao dia em que, inesperadamente, se retomam os trabalhos de construção. À beira do asfalto, a poucos metros da barreira de segurança existe uma casa onde vive, pacatamente instalada, uma família que resolveu viver afastada da civilização. Assim começa o pesadelo daquelas quatro pessoas, habituadas ao silêncio e privacidade. Um filme sobre a solidariedade familiar num momento de mudança e sobre todas as consequências nefastas da poluição, quer físicas, quer psicológicas, na vida de cada ser humano.



Luís Miguel Oliveira, in PÚBLICO, 30 de Junho de 2009
Na berma do progresso
Uma fábula absurda sobre a inevitabilidade da "vida moderna"
Eis um filme que tem tudo para ser bem recebido em Portugal, país onde o "progresso" tem tendência a ser medido em quilómetros de auto-estrada. Enfim, não será só em Portugal, mas aqui a fúria auto-estradista é recente e ainda não totalmente desvanecida. Se o leitor, ao cavalgar pela A1 ou pela A2 ou por outra A-qualquer, alguma vez deu por si a interrogar-se sobre se aquelas casitas que vai encontrando nas imediações já lá estavam antes ou se são dalgum louco que resolveu ir viver com vista para a auto-estrada, este filme dirige-se à sua curiosidade. Porque, pondo-o simplesmente, é um filme sobre o que existia antes da auto-estrada, e sobre como o que existia antes passou a viver com a auto-estrada.
Explicando melhor a situação - quase minimalista - de "Home - Lar Doce Lar", primeira longa-metragem da suíça Ursula Meier, temos uma família que escolheu ir viver para o campo, numa vivenda isolada de tudo. A mãe é Isabelle Huppert, o pai é Olivier Gourmet (que conhecerão dos filmes dos Dardenne), e têm três filhos, duas raparigas e um rapaz, adolescentes. O sossego é total, a família é feliz e unida. Até ao dia em que é construída uma auto-estrada que passa mesmo à porta daquela vivenda. E pior, chega o dia em que a auto-estrada é inaugurada, e a família ouve, com resignado desconsolo, a euforia de uma rádio local que anuncia que agora sim, a vida vai-se tornar mais fácil para toda a gente.
Numa entrevista, Ursula Meier descreveu o seu filme como um "road movie em reverso". Faz sentido, se entendermos por tal um "movie" que não saia da berma da "road". É aí que estamos desde o momento em que o filme arranca, na berma da auto-estrada, na berma do "progresso", numa espécie de fábula absurda sobre a inevitabilidade da "vida moderna" - estejas onde estiveres, ela vai ter contigo, já não se pode ser eremita em paz. Já não se pode ser eremita, ponto. Mas pode-se insistir, pode-se "resistir". Com ironia e um sentido de humor angustiante, Meier descreve a "resistência" daquela família, que não abdica assim tão facilmente do seu bucólico isolamento e tenta, com estoicismo, continuar a viver como se a auto-estrada fosse uma casualidade, um leve estorvo que deixa de existir se se fingir que não existe. É por aí que o filme acaba por fugir um bocadinho a estas premissas, e como que acompanhando o fingimento das personagens acaba por se centrar na família e nos sinais da loucura (emparedam-se...) em que a sua resistência se vai tornando, como se a auto-estrada se convertesse em metáfora, em elemento perturbador que vem desequilibrar o que dantes parecia unido e harmonioso. Até uma conclusão lógica, e por isso "perfeita", ou "redonda", conforme se prefira salientar a virtude ou o vício de uma estrutura circular.
De qualquer modo, o mais entusiasmante está no modo notável como Meier filma a proximidade entre aquelas personagens e a violência física, visual e sonora da auto-estrada e do incessante fluxo de tráfego. Auto-estradas e automóveis: coisa corriqueira da vida moderna de todos os dias. Nalgumas cenas, nalguns planos, nalguns "gags", numa banda de som carregadíssima (mas sempre estranhamente "realista"), o filme de Meier evoca, sem necessariamente ficar a perder, alguns filmes célebres que usaram o automóvel como maneira de destapar o "corriqueiro" da vida moderna para criar uma luz que ilumina a violência que sob ele se esconde. Os automóveis-besouro do "Crash" de Cronenberg, os engarrafamentos-instalação do "Weekend" de Godard ou do "Playtime" de Tati. O "progresso" medido em quilómetros de auto-estrada, em toda a sua insidiosa inescapabilidade.



Mais sobre o filme:

8 e 22 Julho - Ciclo de Cinema - Debate


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Na Casa da Cultura e da Juventude, nos dias 8 e 22 de Julho, pelas 22 horas, “temos encontro” com filmes especiais, seguido de debate/conversa/tertúlia.

Uma parceria entre o Cineclube de Amarante e a Casa da Cultura e da Juventude, trata-se de uma iniciativa à volta do Ambiente e da Alimentação Biológica.



Dia 22, 4ª feira, 22h, Casa da Cultura e Juventude
O Segredo de um Cuscuz

Título original: La Graine et le Mulet
De: Abdel Keniche
Género: Drama
Classificação: M/12
Origem: França
Ano: 2007
Cores, 151 min
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Entrada livre


Na Casa da Cultura e da Juventude, no dia 22 de Julho, pelas 22 horas, temos um segredo a desvendar, com um filme muito especial, seguido de debate: “O segredo de um cuscuz” de Abdellatif Kechiche. Uma parceria com a Casa da Cultura e da Juventude.


Desengane-se aquele que pensa que Cuscuz é apenas o título do filme ou um petisco gastronómico originário do Magreb. É muito mais do que isso: é o núcleo agregador de uma teia de relações humanas repletas de amor e desamores, de amizade e de cumplicidade, mas também de ódio e xenofobia. Através da personagem central, Slimane, o realizador confronta-nos, sempre de forma ambivalente, com uma multiplicidade de questões inerentes à existência: as condições precárias dos imigrantes e dos seus descendentes à sua capacidade de resistência (económico-socio-cultural); da jovialidade à velhice. E porque a existência não é linear nem admite receituário, a ambiguidade do título é hiperbolizada na alternância das cenas finais: da dádiva do amor à heroicidade de um sexagenário que se recusa deixar de sonhar. Porque a utopia não tem idade, mas a idade poderá não resistir à utopia...
Elsa Cerqueira
Mais sobre o filme


Dia 8, 4ª feira, 22h, Casa da Cultura e Juventude

Home - O Mundo É a Nossa Casa

Título original: Home
De: Yann Arthus-Bertrand
Género: Documentário
Classificação: M/6
Origem: França
Ano: 2009
Cores, 120 min
Site


Entrada livre

"Em 200 mil anos de existência na Terra, o Homem quebrou o equilíbrio do planeta. Aquecimento global, extinção de espécies, recursos a esgotarem-se. Mas é tarde demais para o pessimismo: o homem tem apenas dez anos para inverter a tendência, ter consciência da exploração desmedida das riquezas do planeta e alterar as suas formas de consumo."

Este filme teve a particularidade do seu lançamento ter sido feito, no dia 5 de Junho – Dia Mundial do Ambiente - em simultâneo, nas salas, em DVD e num canal de televisão [RTP2]. Vamos ver, então, a cópia em DVD na esplanada da Casa da Cultura e da Juventude. Como diz o realizador: “É tarde de mais para ser comodista”. Apareçam...nem que chova!

17 Abril 2009 - A turma


Título original: Entre les Murs
De: Laurent Cantet
Género: Drama
Classificacao: M/12
Origem: França
Ano:
2008
Cores, 128 min
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Luís Miguel Oliveira in PÚBLICO, 9 de Dezembro
"A Turma" capta a luta de classes que subjaz ao relacionamento entre professores e alunos
Todo o cinéfilo desconfia da famigerada "relevância sociológica" (ou "política", ou nalguns casos "cultural"). Quando, a propósito de um filme, se destaca mais a intensidade com que ele reflecte certos assuntos que estão na ordem do dia e a quantidade de "discursos" que sobre eles o filme (tornado "transparente") permite engatilhar. "A Turma" corre esse risco de se dar a ver como mostruário, "self service" temático de menu "urgente": a educação, a organização da escola, o multiculturalismo, a integração e a inserção, enfim, uma agenda facilmente confundível com as colunas de opinião na maioria dos jornais e revistas. Mas corre o risco de maneira, diríamos, consciente, assimilando-o como parte do seu funcionamento (a rodagem, como veremos, associou a "experiência cinematográfica" à "experiência social"), e sendo capaz de encontrar um filme no meio da agenda, de impor um ponto de vista que já não é exactamente do mesmo tipo.
Laurent Cantet fez-se conhecer por dois belos filmes, "Recursos Humanos" e "O Emprego do Tempo", sobre a "luta de classes" e a organização laboral contemporâneas, embrulhadas numa angústia melodramática. Para "A Turma" partiu do livro de um professor de um liceu parisiense, François Bégaudeau, que relatava a sua experiência como professor de Francês. Foi essa experiência que decidiu reproduzir em "A Turma". O filme é uma ficção mas tem pressupostos cravados no real, até, como dissemos, no seu modo de feitura. Cantet pegou em Bégaudeau (que interpreta o seu próprio papel) e encerraram-se num liceu de Paris, "entre les murs" (título original do filme), com os alunos.
Durante a rodagem, todos, adultos e adolescentes, viveram personagens criadas na fronteira entre o que estava determinado e o que cada um trouxe da sua experiência pessoal. Sem dúvida que isso explica muito do poder de "A Turma": um fortíssimo efeito de real, uma convicção profunda, uma absoluta credibilidade de personagens e situações. Aquela sala de aula tem, sobre o espectador, o efeito de um campo magnético, que o atrai, o prende, e o implica muito para além de questões de reconhecimento ou de identificação. Culturalmente, a turma do professor é a alegre misturada que imaginamos em muitos liceus por essa Europa fora: filhos de imigrantes, do Magrebe, de África, da China, das Antilhas (e, conspicuamente denunciado por uma t-shirt encarnada, um representante da lusodescendência). Este "cocktail", acirrado pelos vários sentimentos de pertença em confronto, é um dos temas do filme, exponenciado por naquela aula se tratar da língua francesa e da cultura francesa, e portanto do ensino de um elemento (supostamente) padronizador de toda aquela diversidade.
Mas a escola, "a turma", é também o espaço da adolescência. A "idade do armário", o desafio da autoridade, a necessidade de afirmação frequentemente um pouco estúpida. A habilidade maior do filme de Cantet está em não traçar uma distinção clara entre o que se justifica "sociologicamente" e o que não tem outra explicação que não passe pela psicologia adolescente. No debate que se seguiu à apresentação do filme no DocLisboa, na semana passada, alguém na assistência mencionou o clima de "guerra" constante que marca a relação, numa escola contemporânea, entre professores e adolescentes. "A Turma" filma muito bem essa guerra, capta muito bem o "teen power" (que é uma coisa recente de que os adolescentes se viram investidos por uma cultura, televisiva, publicitária, totalmente virada para eles, e pelo fácil acesso a todo o tipo de informação, mesmo que "inútil") e a espécie de variação sobre a luta de classes que subjaz ao relacionamento entre professores e alunos. Apesar do que diz Cantet (que falou da preocupação por ter uma câmara "equitativa"), é o ponto de vista dos adultos que sobressai, e de maneira bastante ferida - ainda no princípio, um professor com um ataque de frustração fornece a primeira cena em que sentimos "A Turma" a funcionar para além do seu estrito pressuposto. Mas essa frustração, mais resignada, mas também mais disseminada, criando uma peculiar atmosfera de desilusão e abandono, volta no fim, numa conclusão que tem uma validade "poética" tanto como uma qualidade comentadora pessimista: "A Turma" é um filme sobre uma derrota.

20 Março 2009 - A fronteira do amanhecer


Título original: La Frontière de l'Aube
De: Philippe Garrel
Com: Louis Garrel, Clémentine Poidatz, Laura Smet
Género: Drama
Classificacao: M/12
Origem: França
Ano: 2008
Cores, 106 min